A peste-tempo



Lembro-me de um povo
Que lutou no seu todo
Lembro-me de um país
Que superou tudo o que quis


Vejo-me num caos
Que transformou a nação
E revejo-me numa cela
Que esmorece dia sim, dia não.


Oh irmã, pátria esquecida!
Oh Satã que te apoderaste desta vida!
Muda, questiona, ajusta, transforma
Há sempre outra saída


E o ontem que hoje se foi
Permanece mas já não dói
É a face da ignorância
Que não merece mais tolerância.
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O bicho-tempo



E hoje?
Se eu tivesse cedido por breves instantes
Relembrando tudo como era dantes?


E hoje?
Se eu tivesse mergulhado por breves segundos
Afirmando que ainda existe o que houve de imundo?


Hoje submeto-me ao nada que já foi
E amanhã render-me-ei ao que o hoje é.
Desde o ontem que era ontem e o hoje que hoje é, desenrola-se um incerto amanha.


Será hoje, hoje? O amanhã decidirá (...)
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«Problema de impressão»



Cena na sala de espera antes de entrar para a consulta de grupo com a Dra. Ana


Analuz (sussurando): Sai. Não quero falar contigo, agora. Estás a ouvir? Sai daqui.
Mariana: Hã? Estás a falar comigo?
Analuz (envergonhada): Não, não. Estava a falar com ele.

(Mariana olha à sua volta. Ninguém perto delas. Só Analuz de um lado e Ana do outro.)


Mariana:
Com ele? Com quem? Só cá estamos nós.
Analuz: Ele existe. (Pausa.) Oh, não faz mal. Também me achas maluca. Toda a gente acha. (sorri)
Ana: Acham-te maluca? Porquê?
Analuz: Não sei.
Mariana: Mas tens um amigo imaginário, é isso?
Analuz: Não. Nem todos são meus amigos.

(Mariana e Ana trocam olhares de incompreensão. Em coro:)


Como assim?
Analuz: Oh, vocês não vão perceber tal como todos os outros mas eu conto-vos à mesma.
Eu aos treze anos apercebi-me que não era normal, quer dizer, sou normal só que eles vêm ter comigo em pensamentos a pedir-me ajuda.
Mariana: Eles? Falas com pessoas –
Analuz: Mortas!
Ana: Ai é? Mas… Mas… Mas controlas isso ou eles surgem-te?
Analuz:
As duas. Normalmente surgem-me porque não faço questão de pensar nisso mas sei que consigo fazê-los surgir.
Ana: A sério? É que eu acho que desde há um mês para cá tenho visto… Parece-me… Pronto, vejo-o!

(Mariana acha ridícula a conversa e tenta abstrair-se.)

Analuz: Uau! Pensava que era a única.
Ana: Pois, mas quer-me parecer que não és. Embora não o veja com tanta frequência como tu. Aliás, pode ser só apenas a minha imaginação.
Analuz: Eu também dizia isso até eles se terem apoderado completamente de mim. Por vezes levam-me a cometer loucuras que nem imaginas… (Ana fica assustada.) Olha só esta: a minha mãe contou-me que, estes dias, matei o meu próprio gato, cortei-lhe a cabeça e depois espetei-a no quintal. Mas espera… não era eu.
Ana: Não eras tu? Então era quem? Tens dupla personalidade também?
Analuz: Não, não é isso. Pediram-me ajuda e eu recusei porque já estava farta de me ver envolvida neste tipo de coisas. Então, como vingança, possuíram-me e tiraram-me aquilo de que mais gostava na casa. O Matias era o único que não me julgava.
Mariana: Não estarás a falar do Donnie Darko?!
Analuz: Quem é esse?
Mariana: Esquece. Agora começo a perceber porque é que cá estão. São mesmo perturbadas.
Ana: Olha, tem lá calma porque se estás aqui haverá com certeza alguma razão.
Mariana: Lógico. Tenho uns pais demasiado ocupados e fazem disto uma creche. Um problema absolutamente concreto… Sem visões do além, como podem ver.
Ana: Pode ser que um dia percebas. Sabes, há circunstâncias na vida que te fazem acreditar no que outrora nem sequer davas a mínima credibilidade.
Mariana: Pois, sim, claro. Tomara que os meus problemas fossem todos paranormais. (Pausa.) Mas… Tu consegues mesmo falar com pessoas mortas e coisas assim?
Analuz: Se não acreditas em mim, escusas de brincar comigo, também, ok?
Mariana: Juro que não estou a brincar. Consegues?
Analuz: Já disse que sim.

(Pausa. Ana mantém-se atenta à conversa.)

Mariana: Eu às vezes imagino-a… Será que podes falar com a minha mãe?
Analuz: Com a tua mãe? Só falo com mortos. Não disseste há pouco que tinhas uns pais demasiado ocupados?
Mariana: Sim, mas… Olha, falas ou não?

Analuz (desconfiada): Posso tentar.
Ana: Podes? Quero muito saber se uma pessoa ainda está viva. Fazes isso?
Analuz: Calma. Tenho que me preparar. Isto ainda tem que se lhe diga!

(Analuz prepara-se para entrar em contacto com o submundo. Ouvem-se alguns sons e as últimas palavras:)
Analuz: Estou… Está… (Desmaia.)




A. Catarina Campos
Raquel Pereira
Sílvia Faria
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«Problema de expressão» (parte 2)




ACTO 1
Cena 1



Sala pequena, pessoas em círculo. Ana, cabisbaixa a bater com o pé direito no chão, levanta a cabeça lentamente, olha durante alguns segundos à sua volta fixando cada pessoa muito atentamente


Ana: Eu não me chamo, não existo aqui, não faço parte de nenhum de vocês e tenho a certeza que não tenho nada para partilhar que seja do vosso interesse. Até porque só estou aqui pelo simples facto de a minha irmã ganhar bom dinheiro e preferir gastá-lo assim, internando-me aqui, neste hospício, onde não sou, não tenho e não digo nem tenho nada a falar que deva ser comunicado a vocês.
No entanto, e como terei de ver-vos mais vezes, contra a minha vontade, peço desculpa se alguém ofendi no que disse até agora.
(Alguém a interrompe)
Serei apenas espectadora, se não se importarem. Até que possa lá voltar… outra vez.
Desculpem (...)
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«Problema de expressão» (parte 1)



ACTO 1
Cena 1



Consultório. Clima pesado expresso principalmente pela monotonia dos olhares.


Ana:Eu estou aqui, hoje, porque não tenho nenhum problema e porque a minha irmã insiste que eu realmente tenho esse problema.
Dra. Ana: Pois muito bem… Que problema?
A: Eu não tenho nenhum problema. Já lhe disse, Doutora.
DA: Ok… Vamos por etapas. Tu já dispões da minha ajuda faz hoje, precisamente, uma semana e dois dias… Continuo sem saber de que problema se trata… Assim não te posso mesmo ajudar, por muito que queira. Queres ajudar-me?
(Ana começa a balançar-se na cadeira sem nunca desviar os olhos trémulos e encovados da terapeuta. Ana Faz-lhe um sinal assertivo com a cabeça para que ela comece a falar)
A: Pois bem, vou contar-lhe. O meu problema, é que não tenho problemas e então a minha irmã, que é o meu maior problema dedicou-se a inventar este problema para mim que acabou por originar outro problema que é ter de estar aqui, consigo quando na verdade não deveria porque… (Doutora Ana interrompe-a)
DA: Olha, pára. Pára de te comportar como se fosses uma criança. Ambas sabemos que o já não és. Eu gostava que conseguisses conversar comigo como uma menina bem-educada que és. Achas que é possível? Sem dizeres ‘problema’?
A: Olha que problema…! Não me parece. A si, parece-lhe que sim?
(A terapeuta respira fundo e recomeça o diálogo com Ana)
DA: diz-me lá então porque é que achas que a tua irmã é um problema para ti.
A: Porque só me dá problemas!
DA: Podes ser mais específica, por favor?
(Instala-se um silêncio perturbador)
A: Lá nada me faltava. Quer dizer, às vezes, raras vezes, sentia falta da falta que não tinha. Coisas! Porque aquela falta de coisa nenhuma que em mim se perpetuava era só minha. O silêncio provocado por essa falta era só meu, a atenção pertencia-me por completo, e quando falavam comigo era doce a brutalidade das suas palavras. Porque tudo naquele lugar me pertencia. Até eu era minha. Eu, me, mim, comigo.
DA: Hum hum… estou a perceber, continua. Fala-me dessa falta. Ainda a sentes?
A: Não. Ela é que sente a minha.
DA: Ela quem?
A: A falta.
DA: Vá, não desconverses, Ana. Estavas a ir bem. Deixa-me ajudar-te.
A: Ela não me deixa.
DA: Porquê?
A: Preciso de consola-la…
DA: Precisas de satisfazer essa falta que sentes, eu sei… Mas para isso tens de me dizer de onde é que ela provém… Se não como podes, pelo menos atenuá-la?
A: Eu quero voltar, Doutora. Não percebe isso?
DA: A tua irmã agride-te?
(risos)
A: A minha irmã? Se me agride? Sim…
DA: Conta me lá um desses episódios.
A: Pergunte-lhe a ela. Talvez seja ela quem precisa de cá vir. Eu não estou aqui a fazer nada, torno a dizê-lo.
DA: E que tal se cá viessem, um dia, as duas?
A (sussurrando): Ou as três…
DA: As três? A Olívia não contou de nenhuma terceira irmã…
A: Pois não… Se calhar vive dentro dela.
DA: Achas que a tua irmã está a ser possuída por alguém? Tiveste mais alguma irmã? E…e ela faleceu? É isso? É dela que sentes falta, Ana?


Ana levanta-se, esboça um sorriso e sai.
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«Carta às origens» (parte 1)



ACTO 1
Cena 1




Com os cotovelos pousados sobre o peitoril frio da janela do quarto da mãe, ela sente o vento que lhe assobia na face e toca, com muito cuidado com o dedo indicador da mão direita no nariz gélido. Fecha a janela e recolhe à escrivaninha.
Começa a idealizar pensamentos altos e aleatórios e, mentalmente, imagina-se a escrever uma carta.



Está tanto frio… (desabafa consigo mesma)
Queria tanto que estivesses aqui e que a tua presença significasse a mais pura das realidades existenciais… Que o já não são… Que o foram… Em tempos passados persistiram na esperança de que, numa noite como esta, tu estarias aqui e ambas gozaríamos esse momento tanto quanto nunca gozámos.
Pensei em escrever-te uma carta, colori-la com tudo o que tenho sentido desde há tanto tempo…! Porém, com a certeza de que nunca a pudesses ler nem sequer imaginar este tenebroso momento que me reveste hoje, aqui, no teu quarto, na harmonia do teu belo quarto.
‘Gosto de ti. Venero a tua existência. Desejo a perpétua simbiose da tua felicidade e sanidade, acima de tudo. Não quero nunca experimentar a tua falta.’ Foram as primeiras ideias que pensei em rabiscar neste singelo pedaço de papel. Mas depois disso relembrei a mim mesma com alguma brutalidade ‘ Singelo pedaço de papel? Singelo? Oh!’
Um dia escrevo-te, um dia leio-te (ou não), um dia mostro-te (…)
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«Memória viciada»

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«Carta às origens» (parte 2)




Helena Almeida «Ouve-me»


ACTO I - Cena I


Numa escrivaninha de madeira em tons de castanho pinhão, há uma luz baixa que incide sobre o tabuleiro. Ambiente muito intimista.


Sentada, acaba de apagar o último cigarro, pega na lapiseira e começa a escrevinhar. Poucos segundos depois, atenta no papel que acabou de destruir, rasga-o, amarrota-o e deita-o fora. Começa a escrever.


A: Pensei: “E que tal escrever qualquer coisa?” Então comecei a brincar com a lapiseira e ela comigo e eis que surge no meio da folha “qualquer coisa”, mas depois parei e reflectindo, conclui “Mereces muito, muito mais do que ‘qualquer coisa’ ”. Embora para ti isso não passe disso mesmo – qualquer coisita! E às tantas era essa mesma intenção que eu, inconscientemente, pretendia dar a esta carta. Nem que não o fosse! De qualquer forma nunca terás acesso a isto. Por essa mesma razão é que eu, se quisesse e para tal estivesse destinada, me poderia por para aqui com lamurias e queixumes vãos. Como os dias que tens passado contigo mesma, vãos. Poderia fazer deste rascunho, (sim, rascunho, porque só eu o conheço) um prestimoso muro de lamentações.
Retomei o pensamento e disse para mim mesma “O que é que estava a dizer?”, e nessa altura o meu cérebro tentou, inutilmente, desenvolver o raciocínio, paralelo a este (que já nem sei bem do que trata), para tentar relembrar o motivo pelo qual me estou a escrever esta carta.
Pego num cigarro (afinal ainda tinha, algures numa reserva), procuro o isqueiro (como sempre) e acendo-o. Olho para a janela após ter pousado a lapiseira, cuidadosamente, no seu lugar e penso (pela última vez, juro!) “Mas que raio estou para aqui eu a escrever?” Mas de imediato me consolo ao saber que não a lerá e nem sequer saberá que alguma vez existiu. Também se soubesse não mudaria rigorosamente nada, nem tão pouco seria uma ajuda, nem pequena nem sequer uma «Grande ajuda»! Não seria nada e pronto. (cai cinza no chão devido aos gestos bruscos que faz com as mãos).
Desculpa, por vezes, vidrada na ideia de que precisas de tudo e de todos, passa-me ao lado o facto de conseguires tudo e mais “qualquer coisa”, sozinha.




Atira a ponta do cigarro pela janela fora e fecha-a, de seguida. FIM




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«recorte nas páginas do tempo»







Uma adega, retiro frio e empestado com cheiro a vinho juntamente com o aroma característico da madeira podre. Tecto feito de tábuas, não muito bem sobrepostas. Ouvia-se um tilintar das garrafas quando o vento assombrava o local.
Lá ao fundo, semi – coberta por uma toalha pérola, há uma mesa, pequena no seu porte mas grandiosa na ornamentação. Sobre ela há uma taça e outro copo. A taça encontra-se praticamente vazia, enquanto que o copo está, aparentemente, cheio. Porém, de vez em quando, há uma pinga que esborda do copo quando o vento se escapa pelas frinchas. Perto da mesa está uma cadeira que lembra o trono de um rei, apesar das teias de aranha e e do pó, muito pó.
As paredes do recinto, pálidas mas sujas e sarapintadas com manchas avermelhadas, assemelham-se a uma guilhotina que parece querer esborrachar tudo o que está no meio, a qualquer momento.
Tudo naquela adega era escuro e duvidoso e as únicas coisas que ainda se viam, graças à fraca luz de uma vela, eram as cápsulas das garrafas que reluziam lá ao fundo e uma gamela com restos de comida, pousada sobre o chão de terra batida.




Naíde, sentada na tal cadeira, cabisbaixa, usa uma espécie de uma túnica que vai até á zona púbica, cabelos negros compridos e descuidados e o corpo todo sujo.



ACTO I – cena I




NAÍDE: Estás aí Martim? Porque é que não me respondes? Também tu? Também tu passaste para o lado da morte? Para o lado daqueles bichos? (desanimada, cai e rebola no chão em posição fetal)
(sussurra) Também tu… Até tu… Diz-me Martim, diz-me, como é que é andar na rua, ver o sol, as pessoas, os pássaros. Como é sentir sabores e odores? As flores e as cores? Diz-me. Diz-me!!! (chora desalmadamente) Conta-me como é que vão as causas ambientais, e os animais? E os impostos? E os ordenados e a selecção? A tia Júlia, Martim? Como vai a minha prima Maria? E o Fónix? Têm cuidado bem dele? Ainda bem… Obrigada. És um bom amigo…
Ah! Tu ainda não jantaste hoje… Toma, come.. come… não tenho fome.
Hoje nada… ainda nada, contudo nada. É bom, Martim, nada é bom, é bom o nada que é hoje… Não achas?
(do lado de lá, ouve-se uma porta a ranger)



A: Hum? Vê lá se comes hoje… Siga. Toma lá… Alimento, quem dera a muitos! Vá que amanha já vais trabalhar! (o som começa a ouvir-se com menos nitidez, ouve-se a porta a bater com brutalidade)



NAÍDE: O nada, Martim… Vês? Afinal não existe nada de nada…até o nada que foi o dia de hoje se transformou e se elevou ao cimo da ausência de nada… E o fim… (pega no copo, aperta-o até o conseguir partir em cacos) E o que é o fim, meu Martim? É isto? É isto o fim do meu fim??? (pega num caco e começa a rasgar os pulsos, passando depois para o pescoço, lentamente)
É toda a vida resumida a nada? Então… (morre)

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Son of the sun







O Inverno e o Verão trazem-me sensações completamente divergentes.
O Verão traz-me o calor que ilumina os meus dias e aquece a minha alma, porque no Verão tu estás aqui, comigo. Já no Inverno, sou surpreendida por dias frios, chuvosos e curtos, é como se cada dia que passasse, a minha vida se fosse tornando cada vez mais breve. Até parece que a noite chega mais cedo e vai embora muito mais tarde! Sabes porquê? Porque tu não estás e porque isto só acontece quando sinto a falta da tua presença.
Por isso é que prefiro os dias longos e quentes de Verão, os dias que nunca mais acabam, as horas que não findam nunca, os momentos em que tu estás presente para me aquecer o coração com palavras e sossegar a minha alma com gestos intermináveis.
Porque quando tu não estás, o céu chora. Mas mal te pressente, no Verão, sorri de novo através da estrela mais brilhante que possui. Vê bem, até a natureza reflecte sobre ti, e por essa razão é que demonstra a sua alegria através da beleza e grandiosidade do Sol.


Por ti, só por ti.
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Ups, sou seropositiva!



Era uma sexta-feira à noite, e Soraia acabara de jantar, completamente sozinha, de braços largos e maçudos pousados sobre a mesa. Às 22:00 h em ponto, ela acabara de dar a última dentada no «double cheese». Lambe o polegar direito, e dá por si a pensar.


Soraia: Olha que engraçado… Eu costumava sentar-me aqui com o… com o Emanuel. E… e… era aqui que almoçávamos e lanchávamos e jantávamos, vezes sem conta! (pausa, tenta recordar-se de algo) Ele preferia Mc Fish, e isso, sem dúvida que explicava muita coisa! Já eu… (começam a escorrer-lhe, lenta e silenciosamente, lágrimas pela face. Esboça um sorriso) Olha, estou a chorar. Agora lembrei-me daquela altura em que eu só pesava mais 2kg do que peso agora…! Que bom, não é? (pausa)
O tempo é como os comboios que passam perto do meu prédio, passam a gás colado, como se voassem! (pára por breves instantes)
Ainda há bem pouco tempo eu não passava de uma miúda que gostava tanto do seu fofinho e dava a sua vida pela dele. Na verdade, nunca percebi muito bem a razão pela qual ele nunca mais me ligou, mas pronto! São coisas da vida, não é? (procurando respostas para se convencer a ela própria)
(Após uma longa tentativa de reflexão, começa a cantarolar)
«E desde então, ninguém me quer… Nem nunca vai querer… Que tal como ele que só me quis para (…)» (eleva as mãos até à cabeça) Não, não! São coisas que acontecem. Ele, ele, até já me tinha dito que dentro em breve se iria mudar para o Luxemburgo, que ia migrar, miligrar, emigrar! É isso, ele disse-me que ia emigrar, ou seja, ele volta! (sorri)
Eu tenho um vírus porque não me protegi, caraças eu era vi… não interessa (volta ao ritmo ofegante com que estava) Não foi culpa dele, foi de… ambos! É assim, «ambos», como disse a minha mãe!
Mas eu vou tratar-me… Já estou! É verdade, já ando nisto há nove anos e meio! (a tentar não desmoronar) É… é verdade… vou tratar-me… vou… tratar-me. (vê um homem com um porte semelhante ao de Emanuel há 10 anos atrás)
(Suspira) Ah! Já voltou! Talvez ainda se lembre de mim! (levanta-se e sai a correr).



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Laura dos Ventos



Um lago e uma ponte, não muito comprida. A água é esverdeada e à superfície conseguem ver-se algumas folhas de várias cores. Em frente do lago, há uma encosta que se ergue, como se fosse em direcção ao sol. Do lado de cá da ponte, Laura encontra-se ajoelhada e cabisbaixa, tocando muito ao de leve nas folhas que vão flutuando e dela se aproximam, mas só nas mais avermelhadas. Enquanto isso, ela consegue ouvir, ao longe, o som mágico e fresco da cascata.
(Começa a apor-se o Sol e surge Mariana, a tia com quem Laura vive)


Tia Mariana: Ainda aqui estás, filha? Está a ficar tarde e uma menina como tu não deve permanecer sozinha nestes sítios, a estas horas.
Laura: A estas horas… (olhando fixamente para o Sol que, entretanto, desaparece) Porque não a estas horas, tia? O que quer que seja que eu pretenda fazer, faço-o a qualquer hora. Está com medo, é?
Tia Mariana: Que disparate! Não digas isso… Eu sei que estás cansada. Acho melhor recolher e…
Laura: Cansada não significa néscia. Eu percebo as coisas, tia. E não, já não sou a sua “pérolazinha”, como outrora tanto insistia em chamar-me.
Tia Mariana: Ora, não sejas tão fria comigo, que para frio já basta este vento que te assola! Anda, estás a ficar roxa.
Laura: Já há muito tempo que ando roxa…
(Tia Mariana interrogando-se a si mesma durante breves segundos. Depois hesitante)
Tia Mariana: Porque não te agasalhas! Eu…
(Laura interrompendo-a, furiosa)
Laura: Porque não tenho calor! Sabe uma coisa tia, as plantas precisam de afecto, os animais carecem do mesmo, e até os bichinhos da terra, mesmo os mais insignificantes, precisam que tomem conta deles, ou que pelo menos não os ignorem. A água tem que ser tratada, se não como pode ser ingerida? (cala-se por instantes)
A água… Uma verdadeira preciosidade, não é? Olha…está imunda porque ninguém cuidou dela… Verde… Será que também ela anseia ainda por alguém que a trate? Será, Tia? Alguém que lhe devolva a limpidez com que saíra da fonte? A pureza com que nascera? Será? Será?
(Tia Mariana consigo mesma, em tom de sussurro)

Tia Mariana: Vai chover...
Laura: Pois que chova.
(Tia Mariana, reparando nos braços da sobrinha)
Tia Mariana: Tens cortes… nos braços! Oh não!
Laura: É do vento, tia. É do vento.


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Auto-reflexão

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«A menina Júlia»



«JÚLIA: Você que quis morrer por minha causa?

JOÃO: Tinha de inventar alguma coisa. As tolices com fantasias é que atraem as mulheres.

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JOÃO: Caia até à minha altura, e eu ajudo-a a pôr-se de pé.»
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Oh my dear, you runneth over
With your cup of convoluted wares.
The Aftermath is sinking lower.
The perfect pales beyond compare.

Your garden's rushing to my head now.
Your guise will leave no stone unturned.
I'm paralyzed by your concoction.
Your sleight of hand keeps all my fingers burned.





Oh minha querida, tu corres mais
Com o teu complicado copo de louças.
O resultado está afundando cada vez mais.
O perfeito empalidece incomparável.
 
O teu jardim está agora a stressar a minha cabeça.
O teu pretexto não deixa pedra sobre pedra.
Estou paralisada com o teu plano.
O teu golpe de mão mantém todos os meus dedos queimados.


Extraordinary
JILL TRACY
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Despersonalização









«Um actor não precisa de ter matado uma Desdémona para interpretar com verdade o papel de Otelo (...) Para entrar na pele da célebre personagem de Shakespeare tem o actor vantagem em não sentir o ciúme que mostra estar sentindo.»

J. Gaspar Simões, Heteropsicografia de F. Pessoa
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A sociedade decadentista










Às vezes penso como será descrito o séc.21 num hipotético séc.22. Temáticas: Vampiros e o mundo oculto. Música: Entre muitos, POP reles. Sociedade: consumista, egocêntrica e preconceituosa. What else?
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Belezas condicionadas

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«Pequenas mães, grandes percalços»


(durante a música, sentada/ deitada no meio a definhar, 1.55m - blackout) Está a chover lá fora. Eu decidi ficar em casa a ver televisão. Entre séries e anúncios e o suave “ping-ping” que se ouvia do lado de lá da janela, dei por mim, eram 8h da noite, sem saber o que fazer para o jantar. (mudança de estado)
Lá fora cai a chuva, muito ao de leve como que pressagiando a tempestade que se aproxima. (silêncio, imagina uma janela, em frente ao sofá)
Não parei de pensar naquilo o dia todo… (a ver a chuva, breve silêncio)
Às vezes só damos pelas coisas quando acontecem connosco, (pensativa e depois hesitante) quer dizer, com a minha irmã… Ela não podia… Não assim! Não agora! Não com 12 anos! (depois muito serena)
(calma) A minha mãe já nem lhe fala, o meu pai não a quer ver, o ambiente aqui em casa tornou-se pesado, insustentável, caótico. (desespero) E ela… ela nem sequer quer saber que a condenou a isto! (baixo e articulado) Cheguei quase a bater-lhe! Mas contive-me. (silêncio, encostada á parede)
(riso longo, máxima ironia) Agora, provavelmente, vamos passar a ser 5 cá em casa! Pobre criança, desgraçada da puta da mãe! (longo silêncio, à frente)
(luz intensa) Ela sabe que esta indiferença por parte dela, me perturba… Corrói-me, esfaqueia-me por dentro em pedaços tão singelos como a inocente que aí vem… (silêncio, sarcasmo) Naaa… Não sabe nada… Sou eu que sou impassível, impiedosa… (desespero) Aiii!!! Queria tanto conseguir aceitá-la como que a criança não existisse! (ironia, voz de caricatura) Qual criança? A mãe ou o filho?! (longo silêncio)
(já rendida)
Hoje é só mais um daqueles dias em que só me apetece ficar enterrada no sofá e na ilusão do pensamento de que talvez isto não esteja a acontecer… Outra vez não… (esconde o retrato, silêncio) (…)
(em forma de sussurro) Gostava de conseguir adormecer (…) (debaixo da mesa em posição fetal)





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«Hérmia acordando...»


"Ajuda-me Lisandro! Ajuda-me! Tira daqui esta cobra que me rasteja pelo peito! Oh meu Deus, tem piedade! (acorda)
Que sonho tive, Lisandro. Vê como tremo de medo! Pensei que uma serpente me devorava o coração e tu estavas aí sentado a sorrir desta pilhagem...! (finalmente dá conta de que está a falar sozinha)
Lisandro? O quê? Foi embora? Lisaaandro! Meu Deus, não me ouves? FOI EMBORA! Nenhum som, nenhuma palavra! Ai de mim! Onde estás tu? Se me ouves, fala! FALA EM NOME DO AMOR! Quase desmaio de medo!!! Não?? Então não podes estar perto... Que encontre a MORTE, ou te encontre a ti!"
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