Um lago e uma ponte, não muito comprida. A água é esverdeada e à superfície conseguem ver-se algumas folhas de várias cores. Em frente do lago, há uma encosta que se ergue, como se fosse em direcção ao sol. Do lado de cá da ponte, Laura encontra-se ajoelhada e cabisbaixa, tocando muito ao de leve nas folhas que vão flutuando e dela se aproximam, mas só nas mais avermelhadas. Enquanto isso, ela consegue ouvir, ao longe, o som mágico e fresco da cascata.
(Começa a apor-se o Sol e surge Mariana, a tia com quem Laura vive)
Tia Mariana: Ainda aqui estás, filha? Está a ficar tarde e uma menina como tu não deve permanecer sozinha nestes sítios, a estas horas.
Laura: A estas horas… (olhando fixamente para o Sol que, entretanto, desaparece) Porque não a estas horas, tia? O que quer que seja que eu pretenda fazer, faço-o a qualquer hora. Está com medo, é?
Tia Mariana: Que disparate! Não digas isso… Eu sei que estás cansada. Acho melhor recolher e…
Laura: Cansada não significa néscia. Eu percebo as coisas, tia. E não, já não sou a sua “pérolazinha”, como outrora tanto insistia em chamar-me.
Tia Mariana: Ora, não sejas tão fria comigo, que para frio já basta este vento que te assola! Anda, estás a ficar roxa.
Laura: Já há muito tempo que ando roxa…
(Tia Mariana interrogando-se a si mesma durante breves segundos. Depois hesitante)
Tia Mariana: Porque não te agasalhas! Eu…
(Laura interrompendo-a, furiosa)
Laura: Porque não tenho calor! Sabe uma coisa tia, as plantas precisam de afecto, os animais carecem do mesmo, e até os bichinhos da terra, mesmo os mais insignificantes, precisam que tomem conta deles, ou que pelo menos não os ignorem. A água tem que ser tratada, se não como pode ser ingerida? (cala-se por instantes)
A água… Uma verdadeira preciosidade, não é? Olha…está imunda porque ninguém cuidou dela… Verde… Será que também ela anseia ainda por alguém que a trate? Será, Tia? Alguém que lhe devolva a limpidez com que saíra da fonte? A pureza com que nascera? Será? Será?
(Tia Mariana consigo mesma, em tom de sussurro)
Tia Mariana: Vai chover...
Laura: Pois que chova.
(Tia Mariana, reparando nos braços da sobrinha)
Tia Mariana: Tens cortes… nos braços! Oh não!
Laura: É do vento, tia. É do vento.









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