Uma adega, retiro frio e empestado com cheiro a vinho juntamente com o aroma característico da madeira podre. Tecto feito de tábuas, não muito bem sobrepostas. Ouvia-se um tilintar das garrafas quando o vento assombrava o local.
Lá ao fundo, semi – coberta por uma toalha pérola, há uma mesa, pequena no seu porte mas grandiosa na ornamentação. Sobre ela há uma taça e outro copo. A taça encontra-se praticamente vazia, enquanto que o copo está, aparentemente, cheio. Porém, de vez em quando, há uma pinga que esborda do copo quando o vento se escapa pelas frinchas. Perto da mesa está uma cadeira que lembra o trono de um rei, apesar das teias de aranha e e do pó, muito pó.
As paredes do recinto, pálidas mas sujas e sarapintadas com manchas avermelhadas, assemelham-se a uma guilhotina que parece querer esborrachar tudo o que está no meio, a qualquer momento.
Tudo naquela adega era escuro e duvidoso e as únicas coisas que ainda se viam, graças à fraca luz de uma vela, eram as cápsulas das garrafas que reluziam lá ao fundo e uma gamela com restos de comida, pousada sobre o chão de terra batida.Naíde, sentada na tal cadeira, cabisbaixa, usa uma espécie de uma túnica que vai até á zona púbica, cabelos negros compridos e descuidados e o corpo todo sujo.ACTO I – cena INAÍDE: Estás aí Martim? Porque é que não me respondes? Também tu? Também tu passaste para o lado da morte? Para o lado daqueles bichos? (desanimada, cai e rebola no chão em posição fetal)
(sussurra) Também tu… Até tu… Diz-me Martim, diz-me, como é que é andar na rua, ver o sol, as pessoas, os pássaros. Como é sentir sabores e odores? As flores e as cores? Diz-me. Diz-me!!! (chora desalmadamente) Conta-me como é que vão as causas ambientais, e os animais? E os impostos? E os ordenados e a selecção? A tia Júlia, Martim? Como vai a minha prima Maria? E o Fónix? Têm cuidado bem dele? Ainda bem… Obrigada. És um bom amigo…
Ah! Tu ainda não jantaste hoje… Toma, come.. come… não tenho fome.
Hoje nada… ainda nada, contudo nada. É bom, Martim, nada é bom, é bom o nada que é hoje… Não achas?
(do lado de lá, ouve-se uma porta a ranger)
A: Hum? Vê lá se comes hoje… Siga. Toma lá… Alimento, quem dera a muitos! Vá que amanha já vais trabalhar! (o som começa a ouvir-se com menos nitidez, ouve-se a porta a bater com brutalidade)
NAÍDE: O nada, Martim… Vês? Afinal não existe nada de nada…até o nada que foi o dia de hoje se transformou e se elevou ao cimo da ausência de nada… E o fim… (pega no copo, aperta-o até o conseguir partir em cacos) E o que é o fim, meu Martim? É isto? É isto o fim do meu fim??? (pega num caco e começa a rasgar os pulsos, passando depois para o pescoço, lentamente)
É toda a vida resumida a nada? Então… (morre)