A peste-tempo



Lembro-me de um povo
Que lutou no seu todo
Lembro-me de um país
Que superou tudo o que quis


Vejo-me num caos
Que transformou a nação
E revejo-me numa cela
Que esmorece dia sim, dia não.


Oh irmã, pátria esquecida!
Oh Satã que te apoderaste desta vida!
Muda, questiona, ajusta, transforma
Há sempre outra saída


E o ontem que hoje se foi
Permanece mas já não dói
É a face da ignorância
Que não merece mais tolerância.
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O bicho-tempo



E hoje?
Se eu tivesse cedido por breves instantes
Relembrando tudo como era dantes?


E hoje?
Se eu tivesse mergulhado por breves segundos
Afirmando que ainda existe o que houve de imundo?


Hoje submeto-me ao nada que já foi
E amanhã render-me-ei ao que o hoje é.
Desde o ontem que era ontem e o hoje que hoje é, desenrola-se um incerto amanha.


Será hoje, hoje? O amanhã decidirá (...)
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«Problema de impressão»



Cena na sala de espera antes de entrar para a consulta de grupo com a Dra. Ana


Analuz (sussurando): Sai. Não quero falar contigo, agora. Estás a ouvir? Sai daqui.
Mariana: Hã? Estás a falar comigo?
Analuz (envergonhada): Não, não. Estava a falar com ele.

(Mariana olha à sua volta. Ninguém perto delas. Só Analuz de um lado e Ana do outro.)


Mariana:
Com ele? Com quem? Só cá estamos nós.
Analuz: Ele existe. (Pausa.) Oh, não faz mal. Também me achas maluca. Toda a gente acha. (sorri)
Ana: Acham-te maluca? Porquê?
Analuz: Não sei.
Mariana: Mas tens um amigo imaginário, é isso?
Analuz: Não. Nem todos são meus amigos.

(Mariana e Ana trocam olhares de incompreensão. Em coro:)


Como assim?
Analuz: Oh, vocês não vão perceber tal como todos os outros mas eu conto-vos à mesma.
Eu aos treze anos apercebi-me que não era normal, quer dizer, sou normal só que eles vêm ter comigo em pensamentos a pedir-me ajuda.
Mariana: Eles? Falas com pessoas –
Analuz: Mortas!
Ana: Ai é? Mas… Mas… Mas controlas isso ou eles surgem-te?
Analuz:
As duas. Normalmente surgem-me porque não faço questão de pensar nisso mas sei que consigo fazê-los surgir.
Ana: A sério? É que eu acho que desde há um mês para cá tenho visto… Parece-me… Pronto, vejo-o!

(Mariana acha ridícula a conversa e tenta abstrair-se.)

Analuz: Uau! Pensava que era a única.
Ana: Pois, mas quer-me parecer que não és. Embora não o veja com tanta frequência como tu. Aliás, pode ser só apenas a minha imaginação.
Analuz: Eu também dizia isso até eles se terem apoderado completamente de mim. Por vezes levam-me a cometer loucuras que nem imaginas… (Ana fica assustada.) Olha só esta: a minha mãe contou-me que, estes dias, matei o meu próprio gato, cortei-lhe a cabeça e depois espetei-a no quintal. Mas espera… não era eu.
Ana: Não eras tu? Então era quem? Tens dupla personalidade também?
Analuz: Não, não é isso. Pediram-me ajuda e eu recusei porque já estava farta de me ver envolvida neste tipo de coisas. Então, como vingança, possuíram-me e tiraram-me aquilo de que mais gostava na casa. O Matias era o único que não me julgava.
Mariana: Não estarás a falar do Donnie Darko?!
Analuz: Quem é esse?
Mariana: Esquece. Agora começo a perceber porque é que cá estão. São mesmo perturbadas.
Ana: Olha, tem lá calma porque se estás aqui haverá com certeza alguma razão.
Mariana: Lógico. Tenho uns pais demasiado ocupados e fazem disto uma creche. Um problema absolutamente concreto… Sem visões do além, como podem ver.
Ana: Pode ser que um dia percebas. Sabes, há circunstâncias na vida que te fazem acreditar no que outrora nem sequer davas a mínima credibilidade.
Mariana: Pois, sim, claro. Tomara que os meus problemas fossem todos paranormais. (Pausa.) Mas… Tu consegues mesmo falar com pessoas mortas e coisas assim?
Analuz: Se não acreditas em mim, escusas de brincar comigo, também, ok?
Mariana: Juro que não estou a brincar. Consegues?
Analuz: Já disse que sim.

(Pausa. Ana mantém-se atenta à conversa.)

Mariana: Eu às vezes imagino-a… Será que podes falar com a minha mãe?
Analuz: Com a tua mãe? Só falo com mortos. Não disseste há pouco que tinhas uns pais demasiado ocupados?
Mariana: Sim, mas… Olha, falas ou não?

Analuz (desconfiada): Posso tentar.
Ana: Podes? Quero muito saber se uma pessoa ainda está viva. Fazes isso?
Analuz: Calma. Tenho que me preparar. Isto ainda tem que se lhe diga!

(Analuz prepara-se para entrar em contacto com o submundo. Ouvem-se alguns sons e as últimas palavras:)
Analuz: Estou… Está… (Desmaia.)




A. Catarina Campos
Raquel Pereira
Sílvia Faria
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«Problema de expressão» (parte 2)




ACTO 1
Cena 1



Sala pequena, pessoas em círculo. Ana, cabisbaixa a bater com o pé direito no chão, levanta a cabeça lentamente, olha durante alguns segundos à sua volta fixando cada pessoa muito atentamente


Ana: Eu não me chamo, não existo aqui, não faço parte de nenhum de vocês e tenho a certeza que não tenho nada para partilhar que seja do vosso interesse. Até porque só estou aqui pelo simples facto de a minha irmã ganhar bom dinheiro e preferir gastá-lo assim, internando-me aqui, neste hospício, onde não sou, não tenho e não digo nem tenho nada a falar que deva ser comunicado a vocês.
No entanto, e como terei de ver-vos mais vezes, contra a minha vontade, peço desculpa se alguém ofendi no que disse até agora.
(Alguém a interrompe)
Serei apenas espectadora, se não se importarem. Até que possa lá voltar… outra vez.
Desculpem (...)
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«Problema de expressão» (parte 1)



ACTO 1
Cena 1



Consultório. Clima pesado expresso principalmente pela monotonia dos olhares.


Ana:Eu estou aqui, hoje, porque não tenho nenhum problema e porque a minha irmã insiste que eu realmente tenho esse problema.
Dra. Ana: Pois muito bem… Que problema?
A: Eu não tenho nenhum problema. Já lhe disse, Doutora.
DA: Ok… Vamos por etapas. Tu já dispões da minha ajuda faz hoje, precisamente, uma semana e dois dias… Continuo sem saber de que problema se trata… Assim não te posso mesmo ajudar, por muito que queira. Queres ajudar-me?
(Ana começa a balançar-se na cadeira sem nunca desviar os olhos trémulos e encovados da terapeuta. Ana Faz-lhe um sinal assertivo com a cabeça para que ela comece a falar)
A: Pois bem, vou contar-lhe. O meu problema, é que não tenho problemas e então a minha irmã, que é o meu maior problema dedicou-se a inventar este problema para mim que acabou por originar outro problema que é ter de estar aqui, consigo quando na verdade não deveria porque… (Doutora Ana interrompe-a)
DA: Olha, pára. Pára de te comportar como se fosses uma criança. Ambas sabemos que o já não és. Eu gostava que conseguisses conversar comigo como uma menina bem-educada que és. Achas que é possível? Sem dizeres ‘problema’?
A: Olha que problema…! Não me parece. A si, parece-lhe que sim?
(A terapeuta respira fundo e recomeça o diálogo com Ana)
DA: diz-me lá então porque é que achas que a tua irmã é um problema para ti.
A: Porque só me dá problemas!
DA: Podes ser mais específica, por favor?
(Instala-se um silêncio perturbador)
A: Lá nada me faltava. Quer dizer, às vezes, raras vezes, sentia falta da falta que não tinha. Coisas! Porque aquela falta de coisa nenhuma que em mim se perpetuava era só minha. O silêncio provocado por essa falta era só meu, a atenção pertencia-me por completo, e quando falavam comigo era doce a brutalidade das suas palavras. Porque tudo naquele lugar me pertencia. Até eu era minha. Eu, me, mim, comigo.
DA: Hum hum… estou a perceber, continua. Fala-me dessa falta. Ainda a sentes?
A: Não. Ela é que sente a minha.
DA: Ela quem?
A: A falta.
DA: Vá, não desconverses, Ana. Estavas a ir bem. Deixa-me ajudar-te.
A: Ela não me deixa.
DA: Porquê?
A: Preciso de consola-la…
DA: Precisas de satisfazer essa falta que sentes, eu sei… Mas para isso tens de me dizer de onde é que ela provém… Se não como podes, pelo menos atenuá-la?
A: Eu quero voltar, Doutora. Não percebe isso?
DA: A tua irmã agride-te?
(risos)
A: A minha irmã? Se me agride? Sim…
DA: Conta me lá um desses episódios.
A: Pergunte-lhe a ela. Talvez seja ela quem precisa de cá vir. Eu não estou aqui a fazer nada, torno a dizê-lo.
DA: E que tal se cá viessem, um dia, as duas?
A (sussurrando): Ou as três…
DA: As três? A Olívia não contou de nenhuma terceira irmã…
A: Pois não… Se calhar vive dentro dela.
DA: Achas que a tua irmã está a ser possuída por alguém? Tiveste mais alguma irmã? E…e ela faleceu? É isso? É dela que sentes falta, Ana?


Ana levanta-se, esboça um sorriso e sai.
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«Carta às origens» (parte 1)



ACTO 1
Cena 1




Com os cotovelos pousados sobre o peitoril frio da janela do quarto da mãe, ela sente o vento que lhe assobia na face e toca, com muito cuidado com o dedo indicador da mão direita no nariz gélido. Fecha a janela e recolhe à escrivaninha.
Começa a idealizar pensamentos altos e aleatórios e, mentalmente, imagina-se a escrever uma carta.



Está tanto frio… (desabafa consigo mesma)
Queria tanto que estivesses aqui e que a tua presença significasse a mais pura das realidades existenciais… Que o já não são… Que o foram… Em tempos passados persistiram na esperança de que, numa noite como esta, tu estarias aqui e ambas gozaríamos esse momento tanto quanto nunca gozámos.
Pensei em escrever-te uma carta, colori-la com tudo o que tenho sentido desde há tanto tempo…! Porém, com a certeza de que nunca a pudesses ler nem sequer imaginar este tenebroso momento que me reveste hoje, aqui, no teu quarto, na harmonia do teu belo quarto.
‘Gosto de ti. Venero a tua existência. Desejo a perpétua simbiose da tua felicidade e sanidade, acima de tudo. Não quero nunca experimentar a tua falta.’ Foram as primeiras ideias que pensei em rabiscar neste singelo pedaço de papel. Mas depois disso relembrei a mim mesma com alguma brutalidade ‘ Singelo pedaço de papel? Singelo? Oh!’
Um dia escrevo-te, um dia leio-te (ou não), um dia mostro-te (…)
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«Memória viciada»

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