«Problema de impressão»



Cena na sala de espera antes de entrar para a consulta de grupo com a Dra. Ana


Analuz (sussurando): Sai. Não quero falar contigo, agora. Estás a ouvir? Sai daqui.
Mariana: Hã? Estás a falar comigo?
Analuz (envergonhada): Não, não. Estava a falar com ele.

(Mariana olha à sua volta. Ninguém perto delas. Só Analuz de um lado e Ana do outro.)


Mariana:
Com ele? Com quem? Só cá estamos nós.
Analuz: Ele existe. (Pausa.) Oh, não faz mal. Também me achas maluca. Toda a gente acha. (sorri)
Ana: Acham-te maluca? Porquê?
Analuz: Não sei.
Mariana: Mas tens um amigo imaginário, é isso?
Analuz: Não. Nem todos são meus amigos.

(Mariana e Ana trocam olhares de incompreensão. Em coro:)


Como assim?
Analuz: Oh, vocês não vão perceber tal como todos os outros mas eu conto-vos à mesma.
Eu aos treze anos apercebi-me que não era normal, quer dizer, sou normal só que eles vêm ter comigo em pensamentos a pedir-me ajuda.
Mariana: Eles? Falas com pessoas –
Analuz: Mortas!
Ana: Ai é? Mas… Mas… Mas controlas isso ou eles surgem-te?
Analuz:
As duas. Normalmente surgem-me porque não faço questão de pensar nisso mas sei que consigo fazê-los surgir.
Ana: A sério? É que eu acho que desde há um mês para cá tenho visto… Parece-me… Pronto, vejo-o!

(Mariana acha ridícula a conversa e tenta abstrair-se.)

Analuz: Uau! Pensava que era a única.
Ana: Pois, mas quer-me parecer que não és. Embora não o veja com tanta frequência como tu. Aliás, pode ser só apenas a minha imaginação.
Analuz: Eu também dizia isso até eles se terem apoderado completamente de mim. Por vezes levam-me a cometer loucuras que nem imaginas… (Ana fica assustada.) Olha só esta: a minha mãe contou-me que, estes dias, matei o meu próprio gato, cortei-lhe a cabeça e depois espetei-a no quintal. Mas espera… não era eu.
Ana: Não eras tu? Então era quem? Tens dupla personalidade também?
Analuz: Não, não é isso. Pediram-me ajuda e eu recusei porque já estava farta de me ver envolvida neste tipo de coisas. Então, como vingança, possuíram-me e tiraram-me aquilo de que mais gostava na casa. O Matias era o único que não me julgava.
Mariana: Não estarás a falar do Donnie Darko?!
Analuz: Quem é esse?
Mariana: Esquece. Agora começo a perceber porque é que cá estão. São mesmo perturbadas.
Ana: Olha, tem lá calma porque se estás aqui haverá com certeza alguma razão.
Mariana: Lógico. Tenho uns pais demasiado ocupados e fazem disto uma creche. Um problema absolutamente concreto… Sem visões do além, como podem ver.
Ana: Pode ser que um dia percebas. Sabes, há circunstâncias na vida que te fazem acreditar no que outrora nem sequer davas a mínima credibilidade.
Mariana: Pois, sim, claro. Tomara que os meus problemas fossem todos paranormais. (Pausa.) Mas… Tu consegues mesmo falar com pessoas mortas e coisas assim?
Analuz: Se não acreditas em mim, escusas de brincar comigo, também, ok?
Mariana: Juro que não estou a brincar. Consegues?
Analuz: Já disse que sim.

(Pausa. Ana mantém-se atenta à conversa.)

Mariana: Eu às vezes imagino-a… Será que podes falar com a minha mãe?
Analuz: Com a tua mãe? Só falo com mortos. Não disseste há pouco que tinhas uns pais demasiado ocupados?
Mariana: Sim, mas… Olha, falas ou não?

Analuz (desconfiada): Posso tentar.
Ana: Podes? Quero muito saber se uma pessoa ainda está viva. Fazes isso?
Analuz: Calma. Tenho que me preparar. Isto ainda tem que se lhe diga!

(Analuz prepara-se para entrar em contacto com o submundo. Ouvem-se alguns sons e as últimas palavras:)
Analuz: Estou… Está… (Desmaia.)




A. Catarina Campos
Raquel Pereira
Sílvia Faria

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