«Problema de expressão» (parte 1)
ACTO 1
Cena 1
Consultório. Clima pesado expresso principalmente pela monotonia dos olhares.
Ana:Eu estou aqui, hoje, porque não tenho nenhum problema e porque a minha irmã insiste que eu realmente tenho esse problema.
Dra. Ana: Pois muito bem… Que problema?
A: Eu não tenho nenhum problema. Já lhe disse, Doutora.
DA: Ok… Vamos por etapas. Tu já dispões da minha ajuda faz hoje, precisamente, uma semana e dois dias… Continuo sem saber de que problema se trata… Assim não te posso mesmo ajudar, por muito que queira. Queres ajudar-me?
(Ana começa a balançar-se na cadeira sem nunca desviar os olhos trémulos e encovados da terapeuta. Ana Faz-lhe um sinal assertivo com a cabeça para que ela comece a falar)
A: Pois bem, vou contar-lhe. O meu problema, é que não tenho problemas e então a minha irmã, que é o meu maior problema dedicou-se a inventar este problema para mim que acabou por originar outro problema que é ter de estar aqui, consigo quando na verdade não deveria porque… (Doutora Ana interrompe-a)
DA: Olha, pára. Pára de te comportar como se fosses uma criança. Ambas sabemos que o já não és. Eu gostava que conseguisses conversar comigo como uma menina bem-educada que és. Achas que é possível? Sem dizeres ‘problema’?
A: Olha que problema…! Não me parece. A si, parece-lhe que sim?
(A terapeuta respira fundo e recomeça o diálogo com Ana)
DA: diz-me lá então porque é que achas que a tua irmã é um problema para ti.
A: Porque só me dá problemas!
DA: Podes ser mais específica, por favor?
(Instala-se um silêncio perturbador)
A: Lá nada me faltava. Quer dizer, às vezes, raras vezes, sentia falta da falta que não tinha. Coisas! Porque aquela falta de coisa nenhuma que em mim se perpetuava era só minha. O silêncio provocado por essa falta era só meu, a atenção pertencia-me por completo, e quando falavam comigo era doce a brutalidade das suas palavras. Porque tudo naquele lugar me pertencia. Até eu era minha. Eu, me, mim, comigo.
DA: Hum hum… estou a perceber, continua. Fala-me dessa falta. Ainda a sentes?
A: Não. Ela é que sente a minha.
DA: Ela quem?
A: A falta.
DA: Vá, não desconverses, Ana. Estavas a ir bem. Deixa-me ajudar-te.
A: Ela não me deixa.
DA: Porquê?
A: Preciso de consola-la…
DA: Precisas de satisfazer essa falta que sentes, eu sei… Mas para isso tens de me dizer de onde é que ela provém… Se não como podes, pelo menos atenuá-la?
A: Eu quero voltar, Doutora. Não percebe isso?
DA: A tua irmã agride-te?
(risos)
A: A minha irmã? Se me agride? Sim…
DA: Conta me lá um desses episódios.
A: Pergunte-lhe a ela. Talvez seja ela quem precisa de cá vir. Eu não estou aqui a fazer nada, torno a dizê-lo.
DA: E que tal se cá viessem, um dia, as duas?
A (sussurrando): Ou as três…
DA: As três? A Olívia não contou de nenhuma terceira irmã…
A: Pois não… Se calhar vive dentro dela.
DA: Achas que a tua irmã está a ser possuída por alguém? Tiveste mais alguma irmã? E…e ela faleceu? É isso? É dela que sentes falta, Ana?
Ana levanta-se, esboça um sorriso e sai.
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