«Carta às origens» (parte 2)




Helena Almeida «Ouve-me»


ACTO I - Cena I


Numa escrivaninha de madeira em tons de castanho pinhão, há uma luz baixa que incide sobre o tabuleiro. Ambiente muito intimista.


Sentada, acaba de apagar o último cigarro, pega na lapiseira e começa a escrevinhar. Poucos segundos depois, atenta no papel que acabou de destruir, rasga-o, amarrota-o e deita-o fora. Começa a escrever.


A: Pensei: “E que tal escrever qualquer coisa?” Então comecei a brincar com a lapiseira e ela comigo e eis que surge no meio da folha “qualquer coisa”, mas depois parei e reflectindo, conclui “Mereces muito, muito mais do que ‘qualquer coisa’ ”. Embora para ti isso não passe disso mesmo – qualquer coisita! E às tantas era essa mesma intenção que eu, inconscientemente, pretendia dar a esta carta. Nem que não o fosse! De qualquer forma nunca terás acesso a isto. Por essa mesma razão é que eu, se quisesse e para tal estivesse destinada, me poderia por para aqui com lamurias e queixumes vãos. Como os dias que tens passado contigo mesma, vãos. Poderia fazer deste rascunho, (sim, rascunho, porque só eu o conheço) um prestimoso muro de lamentações.
Retomei o pensamento e disse para mim mesma “O que é que estava a dizer?”, e nessa altura o meu cérebro tentou, inutilmente, desenvolver o raciocínio, paralelo a este (que já nem sei bem do que trata), para tentar relembrar o motivo pelo qual me estou a escrever esta carta.
Pego num cigarro (afinal ainda tinha, algures numa reserva), procuro o isqueiro (como sempre) e acendo-o. Olho para a janela após ter pousado a lapiseira, cuidadosamente, no seu lugar e penso (pela última vez, juro!) “Mas que raio estou para aqui eu a escrever?” Mas de imediato me consolo ao saber que não a lerá e nem sequer saberá que alguma vez existiu. Também se soubesse não mudaria rigorosamente nada, nem tão pouco seria uma ajuda, nem pequena nem sequer uma «Grande ajuda»! Não seria nada e pronto. (cai cinza no chão devido aos gestos bruscos que faz com as mãos).
Desculpa, por vezes, vidrada na ideia de que precisas de tudo e de todos, passa-me ao lado o facto de conseguires tudo e mais “qualquer coisa”, sozinha.




Atira a ponta do cigarro pela janela fora e fecha-a, de seguida. FIM




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